CUIDADOR, QUEM CUIDA DA SUA SAÚDE MENTAL?

Atualizado: 13 de abr.

Atentar-se para a própria saúde mental é o primeiro passo antes de se responsabilizar pelo outro. Veja dicas para garantir o bem-estar emocional dos cuidadores.


Levar no médico, dar banho, preparar a comida, levantar durante a noite para ver se está tudo bem… Essas tarefas podem parecer comuns quando se trata de um bebê, mas a situação muda de figura quando o foco do cuidado é o pai, a mãe ou algum parente próximo.

No Brasil, existem três tipos de cuidadores: os familiares que tomam para si a responsabilidade de cuidar daqueles que amam; os trabalhadores que assumem esse papel para tentar driblar o desemprego; e os cuidadores profissionais capacitados para o cuidado. Nos três casos, a sobrecarga é uma constante.

Noites maldormidas, estresse e medo são algumas das principais queixas de quem cuida. Na pandemia, o cenário se agravou: uma pesquisa global da Embracing Carers envolvendo 755 cuidadores não remunerados no Brasil mostrou que, em 2020, os brasileiros passaram 25,1 horas por semana prestando cuidados, quase duas horas a mais do que a média do restante do mundo.

Entre as principais responsabilidades, enfrentadas pela primeira vez por 22% dos entrevistados, estão a de gerenciar medicamentos e consultas médicas e fornecer apoio emocional ao paciente. Por outro lado, quem garante a saúde mental dos cuidadores?

“A sociedade, de uma maneira geral, tem na cabeça que cuidar do outro é só auxiliar nas atividades da vida diária: dar banho, dar comida e trocar fralda. Mas o cuidado vai muito além disso. Envolve dimensões sociais, emocionais, familiares e espirituais”, detalha Gleice Vellozo, psicóloga, gerontóloga e membro da Comissão Permanente de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa na Câmara Municipal de Juiz de Fora, em Minas Gerais.

Não por coincidência, a concentração de tantos papéis em uma única pessoa leva a um esgotamento sem precedentes. Com a pandemia, 57% dos cuidadores brasileiros relataram piora no bem-estar físico, 68% se mostraram preocupados com a questão financeira e 70% mencionaram prejuízos na saúde mental.


Como o cuidador pode cuidar de si mesmo?

Até 2050, a expectativa da Organização Mundial da Saúde é que a quantidade de brasileiros com 60 anos chegue a 90 milhões. “A sociedade está vivenciando uma grande mudança, porque a longevidade está vindo como um tsunami com todas as questões sociais, emocionais e de saúde. Por outro lado, nós não estamos preparados para cuidar nem para sermos cuidados”, aponta.

A responsabilidade de cuidar do outro, por mais bem intencionada que seja, pode ser um fardo grande demais se não houver o cuidado consigo mesmo. E esse cuidado pode vir de pequenas mudanças na rotina:

Busque informações

“Conhecimento é indispensável para a qualidade de vida, tanto do paciente quanto do seu responsável”, destaca a especialista. Para ela, a primeira coisa que o cuidador deve fazer é procurar informações a respeito da condição daquele que cuida, conversando com o médico para entender qual é a perspectiva a curto, médio e longo prazo.

A ideia é estar preparado para o que está por vir, já que situações inesperadas, como um mal-estar ou uma urgência, podem ser bastante estressantes.

Atualmente, existem também diversos cursos voltados para cuidadores. Compostos por equipes multidisciplinares, eles oferecem orientações sobre todas as dimensões do cuidado, garantindo o bem-estar e a segurança dos envolvidos.

Participe de grupos de apoio

Outra iniciativa voltada para essas pessoas são os grupos de apoio aos cuidadores e familiares de pacientes idosos, acamados, com alguma doença, deficiência física ou condição cognitiva/mental de longo prazo. Geralmente, eles são organizados por associações voltadas para a condição específica, sendo facilmente encontrados em pesquisas pela internet ou conversando com quem passa pela mesma situação.

A Gleice, por exemplo, é membro do grupo de Apoio Social e Emocional aos Familiares das Pessoas com Doença de Alzheimer (ABRAZ/MG). Além de psicólogos como ela, a rede conta com médicos, nutricionistas, fonoaudiólogos e diversos familiares e cuidadores que se ajudam através do WhatsApp e de reuniões mensais. Os assuntos variam: vão desde dicas relacionadas ao dia a dia dos pacientes até desabafos individuais de seus responsáveis.

Converse com a família

Muitas vezes, tanto estresse e ansiedade por parte dos cuidadores vem da concentração de responsabilidades em uma única pessoa. Seja porque a família é pequena, porque não há condições financeiras de contratar um cuidador profissional ou mesmo por relutância do familiar, tudo acaba recaindo sobre uma pessoa só.

“Isso causa muito estresse a curto, médio e longo prazo. Todas as atividades sociais serão suprimidas por conta da responsabilidade com o outro. Vai chegar um momento em que o indivíduo não vai dar conta desse cuidado”, alerta a especialista.

Quando a questão é familiar, é preciso haver planejamento e diálogo. Reúna a família e converse, chamando a responsabilidade de todos os envolvidos. Aceite e requisite ajuda para os deveres diários, como realizar as compras ou fazer companhia para o paciente.

Já se o problema for financeiro, é possível acionar a Promotoria do Idoso. “Se, entre vários filhos, apenas um assume o cuidado do idoso, mas não tem recursos para custear todas as despesas, a Promotoria pode acionar o restante da família e solicitar apoio financeiro dentro da possibilidade de cada um”, explica Gleice.

Procure seus direitos

Falando nisso, existem vários direitos sociais relacionados ao cuidador que muitos nem conhecem. Segundo o Estatuto do Idoso, por exemplo, cabe aos filhos a responsabilidade de prover a subsistência dos pais quando dependentes. Mas, se o idoso e sua família não tiverem as condições de sustento necessárias, essa função fica a cargo do poder público, que deve assegurar o benefício mensal de 1 salário mínimo.

Outros gastos em relação ao cuidado, como medicamentos, fraldas, cadeira de rodas e cadeira de banho, também podem ser amenizados através de um processo administrativo. Em caso de dúvidas, busque a Promotoria de Justiça da sua região.

Separe um tempo para si mesmo

“Não tem condição de cuidar de alguém 24 horas por dia, sete dias na semana. Você não dá aquilo que não tem”, lembra a psicóloga. Uma das dicas mais importantes para que o cuidador mantenha a saúde física e mental em dia é ter o próprio tempo de lazer.

Atividades sociais, como ver os amigos, passear e conversar sobre outros assuntos que não estejam relacionados ao paciente, são imprescindíveis para equilibrar a mente. A alimentação balanceada, a prática rotineira de exercícios físicos e a manutenção das próprias crenças e espiritualidade também ajudam a encarar a situação de uma forma mais leve.

Estresse do cuidador: como reconhecer?

“O estresse do cuidador ou síndrome de burnout é um estado de exaustão, apatia e desinteresse prolongado, causado pelo excesso de esforço dedicado ao outro. A síndrome está muito ligada aos profissionais de saúde, às pessoas que prestam assistência a outras, e mais recentemente temos visto ligada também aos cuidadores”, explica a psicóloga.

Os principais sintomas são:

  • Tristeza;

  • Vontade constante de chorar;

  • Desinteresse pela vida;

  • Falta de vontade para realizar atividades do dia a dia;

  • Reações de estresse agudo;

  • Agressividade;

  • Consumo abusivo de álcool ou outras substâncias;

  • Episódios depressivos ou de ansiedade;

  • Medo generalizado;

  • Problemas na hora de dormir;

  • Alterações na alimentação;

  • Pensamentos suicidas;

  • Comprometimento das relações sociais.

De acordo com a especialista, ao perceber que esse sofrimento perdura de forma forte e prolongada, o cuidador deve buscar ajuda psicológica imediatamente. “Não deixe para depois. Quanto mais tempo passar, mais difícil vai ser reverter a situação”, alerta.



FONTE:

https://drauziovarella.uol.com.br

TENA https://www.tena.com.br


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